Tai Chi Chuan para a Paz, Por quê?

Publicado originalmente em http://www.aartedenutriravida.com/p/tai-chi-chuan-para-paz-por-que-na.html

Na semana passada fizemos uma intervenção bem interessante na Rua Augusta. Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, esta é uma Rua famosa em São Paulo. Até já teve seu nome letra de música. Tom Zé, revolucionário da música brasileira cantou: “Augusta, graças a deus, graças a deus, entre você e a Angélica, eu encontrei a Consolação, que veio olhar por mim, e me deu a mão…”  Lá, lá, lá, lá…

Hoje esta rua, mais especificamente entre a Caio Prado e a Marques de Paranaguá, é o foco de um movimento em prol a construção de um Parque, o Parque Augusta. Neste local existe um terreno enorme, cheio de árvores centenárias, espaço verde, enfim uma possibilidade de mudança no rumo, no caminho que estamos trilhando e seguindo já há muito tempo, e que nos trouxe até aqui. No lugar de um condomínio cheio de prédios e concreto, um espaço vivo na cidade, um lugar para viver. Já não sei mais se temos tempo para isso. Tempo para parar um pouco e observar, usufruir de um momento de paz, de beleza, de harmonia, respirar… Na própria rua Augusta estava lá um riacho cheio de agua se esvaindo pela sarjeta… em abundancia, mas não falta agua…? Não falta tempo? Não falta ar?

Obedecendo ao ritmo lento e compassado da respiração, praticando Tai Chi Chuan, estávamos lá no meio do redemoinho, carros passando, pessoas passando, muito barulho, ônibus, e ninguém até mesmo aqueles que queriam tinham tempo para parar e olhar, observar e ver. Num movimento completamente impulsivo seguiam andando, mas olhando para trás. Um segundo, um milésimo de segundo para respirar, para parar esta loucura que produzimos. Dentro e fora é a mesma coisa. Sem tempo para olhar no rosto daquele que esta ao seu lado e dizer: Bom dia… sem tempo para erguer a cabeça e olhar para o céu… sem tempo para parar e olhar e reconhecer-se, e ver, e respirar, e compartilhar, e conviver, com tudo e todos que estão ao nosso redor.

Mas o tempo passa muito rápido, esta passando cada vez mais rápido e a cada momento estamos correndo contra o tempo para conseguir fazer, realizar, alcançar, produzir. As pessoas andam na rua e parece que estão fugindo. Fugindo do quê? Talvez de si mesmas? Do que lhes foi imposto? Daquilo que nos fazem acreditar? Fugindo, com medo? De que já não há tempo para mudar?

O Tai Chi Chuan faz isso. Ele nos faz parar um pouco e além de conseguirmos dar um respiro em meio a turbulência do movimento externo e interno, ele nos permite observar, olhar, ver e nos reconhecer naquilo que somos. Seres humanos que buscam a felicidade, harmonia, beleza e paz.

E, hoje com a questão da agua, se fala em êxodo urbano, e fico pensando se fugirmos para outro lugar não transformaríamos este outro lugar, hipótese, utopia,  ilusão, delusão, neste mesmo lugar, que aqui estamos. Quem causou isto? Quem produziu esta situação na qual estamos vivendo? Reclamamos dos alagamentos, e jogamos lixo na rua… reclamamos dos congestionamentos e não deixamos o carro na garagem… reclamamos do aumento do preço dos produtos e continuamos consumindo desenfreadamente, reclamamos que não dá mais para viver nesta cidade e ainda assim continuamos reproduzindo nossos hábitos achando que algo exterior a nós é o culpado por tal acaso…

O contraste que se impôs ali naquele momento foi um choque, talvez muito mais para os que estavam passando do que para aqueles que estavam praticando. Talvez por isso a dificuldade em parar… como lidar com o choque, como lidar com o conflito? Com o diverso, com o diferente? Com aquilo que nos expõe na fragilidade da nossa existência. O Tai Chi Chuan é uma arte marcial que baseada em filosofias da antiga china, nos ensina a viver e conviver com este conflito que esta dentro e fora, de uma forma natural, seguindo as leis da natureza, que somos nós mesmos, respeitando-as, respeitando-nos. Viver é conflito, nascer é conflito, morrer é conflito. É mais fácil nos fecharmos, tão ocupados estamos com as telas de computador e celular, do que abrir-se para a mudança, para conhecer o que é desconhecido. Começando por nós mesmos.

Parar e observar, seguindo um ritmo compassado, continuo, fluido de movimentos circulares,  é a prática do Tai Chi Chuan. Porque? Porque podemos perder a possibilidade de uma experiência e uma existência diferente desta. Porque se não pararmos para observar e procurar mudar o rumo que estamos seguindo de dentro para fora, podemos perder um momento de paz.

“A verdadeira descoberta não é encontrar novas paisagens, mas ter novos olhos.”

Marcel Proust

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